Ao
abrir meu facebook hoje pela manhã eu me surpreendi com uma matéria
compartilhada por meu professor de sociologia. Fiquei fascinada e muito alegre
em ver que ainda existem muitas pessoas criativas e mĂĄgicas nesse mundo
perdido. O artigo fala sobre um senhor norte americano de 60 anos que de fato
criou seu prĂłprio mundo em suas terras, tornando delas um verdadeiro cenĂĄrio
tão épico quanto o condado dos Hobbits. Só digo uma coisa: à de pessoas assim que o mundo precisa!
O norte-americano SunRay Kelley, 60, vive no meio de uma floresta no Estado de Washington, nos EUA. Ele construiu sozinho sete casas, 10 lagos, uma cabana de eremita, uma imagem de Jesus de 10 metros de altura e um estĂșdio de yoga, em um cenĂĄrio que lembra o de um conto de fadas - Esse cara lembra muito o Tom Bombadil do Senhor dos Aneis.
DĂȘ a um sujeito alguns alqueires de terra e uma semana no mato, e ele logo vai começar a planejar seu castelo. Mas apenas uma alma incomum, contudo, começa a construir sete casas, 10 lagos, uma cabana de eremita, um Jesus de 10 metros de madeira de lei e um estĂșdio de yoga cuja porta cor de rosa esculpida lembra (com verdadeira precisĂŁo anatĂŽmica) a genitĂĄlia feminina.
O senhor das terras Ă© um animal sem dono que anda descalço de 60 anos chamado SunRay Kelley. E sua fantĂĄstica propriedade construĂda Ă mĂŁo fica no fim de uma estrada de barro que tem o nome de seu avĂŽ, no sopĂ© da serra Cascade, ao Norte de Seattle. A melhor forma de descobrir o trabalho de SunRay Kelley (um Taliesin hippie) Ă© fazer uma peregrinação. Um visitante assĂduo Ă© o autor e fundador da Shelter Publicactoins, Lloyd Kahn, cujo livro definitivo nos anos 70 sobre arquitetura regional, “Shelter”, Ă© um marco do estilo de Kelley. “Foi uma espĂ©cie de odisseia”, disse Kahn ao telefone de sua prĂłpria casa feita Ă mĂŁo em Bolinas, CalifĂłrnia. “Ele de fato Ă© um artista. Ele nĂŁo se envolve muito com os detalhes do mundo real”.
Kelley construiu talvez 50 estruturas quimĂ©ricas irregulares pelo continente, desde palĂĄcios campestres assustadores atĂ© cabanas de Smurfs. Ainda assim, ele prefere ficar no que ele chama de “a propriedade” por dias ou semanas sem fim. Aqui, ele Ă© livre para empilhar discos de tratores para se tornarem antenas cĂłsmicas e arrastar toras que sussurram suas intençÔes. “Quando ele diz que ouve a natureza, de fato, ele ouve”, disse Kahn. “Acho que Ă© provavelmente o maior construtor com materiais naturais. NĂŁo tem ninguĂ©m como ele em lugar algum”. (A lenda de Kelley deve chegar aos lares norte-americano no dia 7 de dezembro, quando seu trabalho serĂĄ mostrado em um episĂłdio de “Home Strange Home” da Hgtv).

Uma recente manhĂŁ de sĂĄbado encontrou Kelley mexendo no jardim enquanto fumava um cigarro de ervas para evitar o tabaco. Ele se medica desta forma em certos momentos do dia, como quando se levanta e ainda nĂŁo comeu. Durante os anos, ele caiu de telhados, quebrou um tornozelo e os dois pĂ©s. O quadril estĂĄ seriamente afetado. Mais misteriosamente, ele adquiriu um estigma na testa, uma ferida que chora em certos momentos do dia. Na primavera, ele estava em cima de uma escada, cortando algumas tĂĄbuas de cedro no telhado de sua oficina. AĂ, a serra agarrou na borracha do telhado e “Chu-chu-chu! Bateu na minha cabeça com toda força”, disse ele.
A narina direita dele se abre como uma tenda. “NĂŁo Ă© a experiĂȘncia mais agradĂĄvel”, continuou. Em sua vida, Kelley transformou o cenĂĄrio em seu terreno de nove acres. E o cenĂĄrio, invariavelmente, o transformou. Nos anos 20, seu avĂŽ estabeleceu-se em uma propriedade em 1,6 km quadrado de mata aqui na base da montanha Cultus e abriu uma serralheria. Seu pai criou algumas dezenas de bois em uma pequena parte da terra. Nenhuma das vocaçÔes atraiu a Kelley.




“O planeta Ă© uma floresta, Ă© um jardim”, disse ele. “Eu nĂŁo gostava de construir cercas ou de caçar os bois. VocĂȘ nĂŁo tem que caçar essas” -esticou-se e pegou uma maçã das 200 ĂĄrvores que ele mesmo enxertou.
A umidade do inverno criou dĂ©cadas de limo nos membros contorcidos da macieira, que parece uma criatura de lenda. A madrasta da Branca de Neve nĂŁo poderia ter criado uma ĂĄrvore mais fantasmagĂłrica. Mas Kelley tem um jeito de conto de fadas ele mesmo, troncudo, com cabelos emaranhados e barba fĂ©rtil. Sua parceira hĂĄ oito anos, Bonnie Howard, professora e construtora, conseguiu aparar a juba dele apenas uma vez. “Quando fomos construir em Costa Rica”, lembra-se, “os cigarros dele se apagavam com seu prĂłprio suor”.
A parte favorita do terreno de Kelley fica na base de um morro lamacento, do outro lado do que Howard chama de “ponte de Billy Goat Gruff” (construĂda com um velho chassi de caminhĂŁo). Kelley mancou atĂ© uma floresta escura e profunda. “Esta Ă© a Ășltima floresta secundĂĄria”, disse ele, apontando para alguns cedros altos. “Esses aqui tinham 40 anos quando os vi pela primeira vez. E eles sĂł cresceram e ficaram mais mĂĄgicos”.






Os tocos antigos sĂŁo ainda mais largos. Kelley pendurou uma pequena armação que ele chama de Cabana do Eremita em cima de um deles. “Este tem pelo menos mil anos”, disse ele. “VocĂȘ nĂŁo consegue fabricar uma fundação que dure muito mais do que isso”. Ainda assim, dentro desse menino do campo, existe um louco por motor, confessou. O caminhĂŁo de entregas dele Ă© um Diamond T de 1947, que ele mesmo reconstruiu. Contudo, ele costuma ir para a cidade em uma bicicleta reclinada que ele reformou e aparelhou com um motor elĂ©trico e freios regeneradores. Kelley anda com esse veĂculo-conceito em atĂ© 80km por hora.
“Quando vocĂȘ anda assim tĂŁo perto do chĂŁo”, disse ele, o pavimento “parece uma lixa gigante. Se vocĂȘ cair, nĂŁo vai sobrar muita pele”. (Ă possĂvel encomendar a bicicleta de Kelley, para os mais ousados). Seu prĂłprio motor gira o dia todo, todos os dias, segundo Howard, 50. “Ele Ă© igual um desenhista compulsivo, sĂł que Ă© um construtor compulsivo”.
Kelley entĂŁo abre o caminho morro acima, na direção de um abrigo primitivo. HĂĄ alguns anos, o filho de Howard, Eli Erpenbach, hoje com 16, construiu um pequeno forte com galhos caĂdos na floresta. O arquiteto da casa de toco oco ali perto foi o neto de 11 anos de Kelley. “Esses sĂŁo os humildes primeiros passos de um construtor”, disse ele, com um olhar aprovador. “Isso Ă© exatamente o que eu fazia quando era criança nessas matas. Acho que eu nunca parei, de fato”.
Em algum momento, Kelley morou em quase todas as moradas na propriedade. Primeiro, veio a Casa Terra, em 1976, onde ele moldou quatro mĂŁos de bronze para sustentar as vigas do telhado. Depois, Kelley se mudou para uma oficina perto de um apartamento que ele chama de Buzina, cujas vigas antigas nĂŁo pareceriam fora de lugar em Winterfell. Amigos e viajantes se mudaram para esses locais e ficaram meses ou anos, ajudando nas contas.
Em 1998, Kelley deixou relutantemente o que talvez fosse sua maior casa, a Casa CĂ©u, lembra-se uma moradora de longa data da propriedade. “Eu expulsei ele”, disse Judy, ex-mulher de Kelley. Por acaso, ela passou por ali com seu novo marido para pegar algumas maçãs e parou para bater um papo. (Ela preferiu nĂŁo dar seu Ășltimo nome, disse ela, pois tem um emprego respeitĂĄvel no mundo careta). Viver com Kelley foi uma aventura e uma tribulação, disse Judy. “Sempre havia uma sĂ©rie de visitantes interessantes passando por aqui: circos, artistas, iogues, gurus”.
Quanto tempo os convidados ficavam? “AtĂ© terem comido tudo o que tĂnhamos”, disse Judy. “SaĂamos um dia e quando voltĂĄvamos tinham comido tudo –inclusive as galinhas”. Judy ainda Ă© dona e aluga seu antigo estĂșdio de yoga (O que vocĂȘ tem quando cruza yoga com uma iurta? O que Kelley chama de “Iogurte”). Ele esculpiu as dobras ondulantes em torno da entrada durante sua primeira paixĂŁo com o “cob”, um cobertura que mistura terra, palha e ĂĄgua. Judy tambĂ©m aluga a Casa CĂ©u, uma maravilha de quatro andares que parece uma igreja rural russa. Aqui tambĂ©m, a ornamentação Ă© furiosamente imaginativa. As colunas de madeira se projetam para alĂ©m do teto como um mastro ou uma presa de narval. O mastro exposto fica Ășmido durante as chuvas interminĂĄveis do outono.
“Adoro deixar eles expostos, apesar de apodrecerem”, disse Kelley. “NĂŁo Ă© uma boa ideia”. Kelley nunca foi refĂ©m da praticidade. Como disse sua ex-mulher: “Nada era terminado. Nunca. Isso me deixava louca”. O aquecimento tambĂ©m era um problema, no sentido que nĂŁo havia nenhum. “Uma coisa eu posso dizer sobre Ray, ele nĂŁo consegue construir um sistema de aquecimento”, disse ela. Kelley respondeu: “NĂŁo Ă© verdade. Venha ver minha casa agora”. Judy nĂŁo estava inclinada a aceitar o convite. “Algumas vezes eu chorava, de tanto frio”, disse ela. Kelley admitiu: “Houve alguns anos realmente frios”. A reclamação parece ter terminado e ela o abraça. “Mas nossos filhos cresceram saudĂĄveis. Eles quase nunca adoeciam. Eles colavam no chĂŁo, os dedos duros”.
Kelley começou a construir sua atual residĂȘncia, a Casa Jardim, de uma forma ad hoc. Ele precisava de um lugar para dormir. Mas isso nĂŁo Ă© muito diferente de seu mĂ©todo usual. “Eu pratico o que eu chamo de arquitetura evolutiva”, disse ele. “Isso significa que vocĂȘ faz planos, mas se surgir uma ideia melhor amanhĂŁ, vocĂȘ estĂĄ disposto a mudar os planos”. Por 15 anos, atĂ© este verĂŁo, os planos nĂŁo incluĂam armĂĄrios ou iluminação moderna. “Nunca fui muito fĂŁ de luzes elĂ©tricas”, disse Kelley. “Tenho olhos de gato. Emito luz suficiente com o meu corpo”.
Muitos dos atuais projetos de Kelley sĂŁo pequenas construçÔes modulares que podem custar apenas US$ 15.000 a US$ 20.000 (entre R$ 30.000 e R$ 40.000); variaçÔes de iurtas. Raramente vocĂȘ precisa de uma licença para construir ou um emprĂ©stimo para montar uma cabana de 20 metros quadrados para morar ou como uma sauna com um forno de pizza.
Kelley pode construir um abrigo desses na oficina, entregĂĄ-lo e montĂĄ-lo em uma ou duas semanas. Neste ponto, os clientes sĂŁo livres para terminar a casa da forma que quiserem, e Kelley estĂĄ livre para ir para casa. “Quando vocĂȘ constrĂłi uma casa para alguĂ©m, vocĂȘ tem que ouvir o que eles querem”, disse ele. “Pode ser bem desafiador”. Kelley completou algumas encomendas exaustivas, inclusive o Templo de Harbin Hot Springs, no Norte do Napa Valley. Essa incrĂvel construção tem uma torre de vidro de 20 metros no centro e traves expostas que espiralam para uma cĂșpula radiante (Kelley adora cĂșpulas).
Segundo as estimativas de Kahn, o autor e editor, Ă© uma “obra de mestre” –limpa e geomĂ©trica, na qual as estruturas da propriedade parecem “desmazeladas”. Kelley conheceu Howard durante os 18 meses que passou ali, acampado no local da obra. Depois, ela assumiu o papel de gerente de projetos de Kelley. Ou, para ser realista, gerente de tudo dele. Com Kelley fazendo a maior parte de suas refeiçÔes cruas, das macieiras ou amoreiras, ela tambĂ©m Ă© a cozinheira da casa. Esta noite, ela estĂĄ preparando uma truta arco-Ăris do rio Skagit, pescada naquela manhĂŁ pelo seu velho amigo Joe Pitman.
Howard concordou em pagar a ele com um pedaço de torta de maçã. Mas ele tinha outra tarefa antes: remover uma das botas de Kelley, que estava se recusando a sair. “Em geral, vocĂȘ nĂŁo usa nada”, disse Pitman. De fato, Kelley andou descalço por anos. “Eu era bastante religioso sobre andar descalço”, disse ele, afundando em uma cadeira na frente da lareira da cozinha. “Depois eu decidi que, de vez em quando, nĂŁo Ă© bom ser muito religioso sobre nada”.
Com o problema no quadril, Kelley recentemente começou a pensar em como poupar suas forças. “NĂŁo tenho mais a capacidade que eu tinha quando tinha 30 ou 40 anos”, disse ele. “Ă duro. VocĂȘ quer ver seu trabalho evoluir, vĂȘ-lo melhorar”. Manter a propriedade, em si, jĂĄ Ă© uma tarefa sem fim. Uma ĂĄrvore estĂĄ começando a brotar no telhado cheio de musgos da Casa da Terra. E uma roseira selvagem estĂĄ tomando as escadas da Casa Buzina. “Quero que durem para sempre”, disse Kelley de suas construçÔes. “Mas a verdade Ă© que tudo Ă© temporal. Tudo estĂĄ em vias de virar adubo”.
Subitamente, seu rosto se ilumina e ele olha para o aparador. A torta de maçã saiu do forno, e Howard cortou e serviu um quarto dela. Kelley jogou fora seu cigarro, ainda queimando, em uma saladeira com suas ervas medicinais, que começou a arder lentamente. “SunRay sempre começa pela sobremesa”, disse Howard. O companheiro concordou e afundou suas mĂŁos em uma montanha de maçã quente. “VocĂȘ nunca sabe quando sua bolha vai estourar”, disse Kelley. “Mas sabe que vai estourar. E eu vou comer minha sobremesa antes de ir-me”.
Fonte:
http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/the-new-york-times/2012/12/02/homem-vive-em-cenario-de-contos-de-fadas-nos-eua.htm