lördag, augusti 29

~ Conselhos de um caracol [Atualizações do Walter]

Meses após meus últimos escritos neste espaço, retorno para dar atualizações sobre este senhorzinho (OMS, 2026)1 espiralado que tem tornado meus dias mais leves (e que neste exato momento está ocupado obliterando uma minicenoura).

Quarta-feira passada fizeram exatos oito meses que o Walter chegou às nossas vidas. Posso dizer que essa criaturinha tem me rendido muitas reflexões e aprendizados. Eu até gostaria de ter criado uma espécie de diário de campo sobre minhas impressões, incluindo observações acerca de seu comportamento e de suas preferências alimentares, bem como dos erros e acertos na construção de um terrário. O problema é a falta de tempo e energia para isso. Normalmente, estou abarrotada de trabalho, já que equilibro a atuação em regime CLT com a carreira autônoma, o que consome praticamente todo o meu tempo. Também estou com outros dois artigos em andamento para este blog, ambos sobre jogos. Vamos ver como as coisas caminham.

~Walter posando para a foto em um dente-de-leão. 2026. Digital color photograph. Personal archive.

Mesmo sem muita energia mental, considero que o marco de oito meses do nenê2  seria relevante demais para passar batido. Então, vamos lá: desde o post Prelúdio, no qual o Walter foi oficialmente apresentado, tenho ampliado meu conhecimento acerca de terrários e do comportamento de moluscos terrestres.

Adicionei vários alimentos com sucesso à dieta dele: chuchu, folhas de brócolis, cogumelos e couve-manteiga (os últimos dois se tornaram os queridinhos do nenê). Também descobri recentemente que ele aceita bem a fonte de cálcio oferecida na forma de papinha. O osso de siba, para quem não sabe, é a concha interna de um molusco marinho e serve como excelente fonte de cálcio para caracóis.

Em abril, viajamos na Páscoa para visitar a família no interior. Embora meus planos fossem levar o Walter passear no jardim, como estava um calor dos infern*, ele acabou estivando a viagem toda, sobretudo por ser muito estressante para ele viajar de carro. Não sei quem sofreu mais com o calor, se eu ou ele. Essa ausência de contato com o mundo externo (além do que colocamos no terrário para simular a vida na floresta) nos deu a ideia na verdade a ideia foi minha de criar um playground com galhos e plantinhas amigáveis para caracóis. Esse projeto ainda não saiu do papel, mas estou contando com a engenhosidade do meu parceiro para isso.

Em meados de junho, Walter teve que passar uma semana no apartamento do meu namorado, pois as áreas comuns do meu prédio passaram por uma dedetização. Nosso receio era de que resquícios do veneno se espalhassem e lhe causassem algum efeito tóxico; assim, só o trouxemos de volta quando acreditamos que já estava seguro.

Quanto à rotina, ele passa a maior parte do dia dormindo escondido entre o musgo e a fibra de coco que usamos de substrato (material que funciona como uma “caminha” fofa e confortável para ele). No começo da noite, ele sai para dar as voltinhas dele e explorar o terrário, beber as gotículas de água e encher o panduzinho de comida. Claro que as coisas nem sempre acontecem nessa ordem. Há dias em que ele fica mais ativo e até mesmo dorme fora da conchinha.

~Olha a boquinha 😭

Outra coisa que aumentou desde o texto introdutório de março para cá foi a lista de músicas que associo a ele (sim, eu associo músicas a serzinhos fofos). A principal continua sendo Advent, do Dead Can Dance, seguida de diversas outras desse artista, como a que escuto no repeat enquanto escrevo este texto.

É evidente que essa atribuição de músicas a um caracol faz parte daquele processo de antropomorfização pelo qual todos nós, tutores apaixonados por nossos bichinhos, passamos à medida que a presença deles se torna uma parte inexorável das nossas vidas. Quando faço minhas atividades ou viajo na maionese ouvindo minhas músicas, não sou apenas eu fazendo isso; somos eu e o Walter apreciando aquela canção. Quando estou cansada depois de um dia de expediente, reclamo para ele, meu companheirinho de trabalho. Quando vou checar o terrário para ver o que ele anda aprontando, falo com ele naquele tom infantil, como se ele pudesse me ouvir.

Algo que já virou bordão entre mim e meu parceiro é usar o Walter como bode expiatório quando quero alguma coisa do mercado (“O Walter está pedindo...”) ou quando como uma barra de chocolate inteira (“Eu dividi com o Walter...”). Meu namorado até passou a dizer que o Walter virou o “caracol expiatório” (esse é nosso humor lúdico). 😆

É nesse ponto que entram os “Conselhos de um caracol”, título da postagem. O bichinho Walter certamente não faz ideia do mundo acelerado no qual vivemos, da ansiedade que os prazos e as metas do trabalho nos causam, tampouco do que seja um boleto. Contudo, em toda a sua simplicidade e calmaria, ele tem muito a ensinar àqueles dispostos a observá-lo.

Ele vive o momento, degusta sua abobrinha, aproveitando cada detalhe do sabor. Sabe apreciar as pequenas coisas da vida, como quando levanta as anteninhas e a cabecinha para sentir o vento. Come alimentos saudáveis, bebe água e repousa sempre que o corpo pede. Quantas vezes, na vida, somos devorados por prazos e sobrecarregados por um ritmo que não nos é natural, a ponto de nos esquecemos de quão boa é a sensação se sentir o vento? De quão mágico pode ser observar as nuvens coloridas em um final de tarde? De quão bom é fazer uma refeição e simplesmente aproveitar o momento?

No meu caso, a própria responsabilidade de cuidar dele me obrigou a comer mais tipos de vegetais, pois sempre tenho que comprá-los. Já mencionei meu vício em rúcula? Também costumo me lembrar mais de beber água, já que, de tempos em tempos, borrifo o terrário para manter o ambiente com a umidade adequada para ele.

E, sinceramente, no final do dia, são essas coisas que realmente valem a pena e fazem a vida ter sentido. É rir de coisas bobas (como chamar ele de “caracol expiatório”), ouvir uma música e lembrar de alguém querido, sentir o vento no rosto, observar a natureza e continuar se maravilhando com coisas simples.

Ao visitar fóruns sobre criação de moluscos de estimação, deparei-me com uma das descrições mais belas e singelas sobre a relação entre um tutor e seu bichinho. O texto, que traduzirei a seguir, foi uma resposta a uma pessoa que indagava se caracóis têm noção da existência de seus tutores. Para entender melhor o contexto da discussão, é preciso considerar o fato de que caracóis são animais cuja visão é bem rudimentar (seus pequenos olhos apenas detectam variações de luminosidade), não têm audição como a nossa e dependem muito de quimiorrecepção para perceber o ambiente. Essa é, inclusive, a função daquelas pequenas estruturas próximas à boca. Mas, diante de tudo isso, eles têm noção da nossa existência?

“Eles fazem, mas não como ‘você’ faz, como sua família e amigos fazem. Você é a sensação de conteúdo que eles sentem quando cheiram e provam uma boa refeição. Você é a segurança que eles experienciam quando conseguem dormir sem interrupções. Você é uma força da natureza favorável quando o espaço deles está livre de excesso de sujeira. Você está nas dez mil pequenas escolhas que eles fazem todos os dias. Você é tudo, menos nada para eles. Sua invisibilidade é um presente. Nunca ser conhecido é um presente. Você deu a eles o presente de uma vida perfeita. Como a mão de Deus amparando sua criação”. (Usuário do Reddit)

[Olhos cheios de lágrimas]

Logo, talvez o Walter não saiba quem eu sou da maneira como a Flora (minha gata) sabe, mas a presença e os cuidados que ofereço fazem parte da experiência de vida dele. E todo o amor que sinto por ele é justamente isso: amar e cuidar de um serzinho frágil, pequeno e indefeso sem pedir nada em troca, encontrando paz e felicidade simplesmente em vê-lo se sentindo bem e protegido. Deixo aqui duas das minhas fotos preferidas dele, tiradas ainda no começo deste ano no jardim da minha vó.

~Walter em um momento de reflexão no jardim. 2026. Digital color photograph. Personal archive.

🎧 Indoctrination (A design for living) ~ Dead  Can Dance.


1 Aviso: este artigo está repleto de diminutivos por motivos de um quadro clínico conhecido como Cuteness overload, atualmente sem tratamento, segundo dados da OMS (2026).

2 Esse período refere-se à data em que o encontramos na floresta, não tendo relação com a idade dele, que não sabemos precisar.

~ Conselhos de um caracol [Atualizações do Walter]

Meses após meus últimos escritos neste espaço, retorno para dar atualizações sobre este senhorzinho (OMS, 2026) 1 espiralado que tem tornad...