Meses após meus últimos escritos neste espaço, retorno para dar atualizações sobre este senhorzinho (OMS, 2026)1 espiralado que tem tornado meus dias mais leves (e que neste exato momento está ocupado obliterando uma minicenoura).
Quarta-feira passada fizeram exatos oito
meses que o Walter chegou às nossas vidas. Posso dizer que essa criaturinha tem
me rendido muitas reflexões e aprendizados. Eu até gostaria de ter criado uma
espécie de diário de campo sobre minhas impressões, incluindo observações acerca
de seu comportamento e de suas preferências alimentares, bem como dos erros e
acertos na construção de um terrário. O problema é a falta de tempo e energia
para isso. Normalmente, estou abarrotada de trabalho, já que equilibro a atuação
em regime CLT com a carreira autônoma, o que consome praticamente todo o meu
tempo. Também estou com outros dois artigos em andamento para este blog, ambos
sobre jogos. Vamos ver como as coisas caminham.
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| ~Walter posando para a foto em um dente-de-leão. 2026. Digital color photograph. Personal archive. |
Mesmo sem muita energia mental, considero
que o marco de oito meses do nenê2 seria relevante demais para passar
batido. Então, vamos lá: desde o post Prelúdio, no qual o Walter foi
oficialmente apresentado, tenho ampliado meu conhecimento acerca de terrários e
do comportamento de moluscos terrestres.
Adicionei vários alimentos com sucesso à
dieta dele: chuchu, folhas de brócolis, cogumelos e couve-manteiga (os últimos
dois se tornaram os queridinhos do nenê). Também descobri recentemente que ele
aceita bem a fonte de cálcio oferecida na forma de papinha. O osso de siba,
para quem não sabe, é a concha interna de um molusco marinho e serve como
excelente fonte de cálcio para caracóis.
Em abril, viajamos na Páscoa para
visitar a família no interior. Embora meus planos fossem levar o Walter passear
no jardim, como estava um calor dos infern*, ele acabou estivando a viagem
toda, sobretudo por ser muito estressante para ele viajar de carro. Não sei
quem sofreu mais com o calor, se eu ou ele. Essa ausência de contato com o mundo externo (além do que colocamos no terrário para simular a vida na floresta) nos
deu a ideia na verdade a ideia foi minha de criar um playground com galhos e
plantinhas amigáveis para caracóis. Esse projeto ainda não saiu do papel, mas estou
contando com a engenhosidade do meu parceiro para isso.
Em meados de junho, Walter teve que
passar uma semana no apartamento do meu namorado, pois as áreas comuns do meu
prédio passaram por uma dedetização. Nosso receio era de que resquícios do
veneno se espalhassem e lhe causassem algum efeito tóxico; assim, só o
trouxemos de volta quando acreditamos que já estava seguro.
Quanto à rotina, ele passa a maior parte
do dia dormindo escondido entre o musgo e a fibra de coco que usamos de substrato
(material que funciona como uma “caminha” fofa e confortável para ele). No
começo da noite, ele sai para dar as voltinhas dele e explorar o terrário,
beber as gotículas de água e encher o panduzinho de comida. Claro que as coisas
nem sempre acontecem nessa ordem. Há dias em que ele fica mais ativo e até
mesmo dorme fora da conchinha.
Outra coisa que aumentou desde o texto
introdutório de março para cá foi a lista de músicas que associo a ele (sim, eu
associo músicas a serzinhos fofos). A principal continua sendo Advent, do
Dead Can Dance, seguida de diversas outras desse artista, como a que escuto no
repeat enquanto escrevo este texto.
É evidente que essa atribuição de
músicas a um caracol faz parte daquele processo de antropomorfização pelo qual
todos nós, tutores apaixonados por nossos bichinhos, passamos à medida que a presença
deles se torna uma parte inexorável das nossas vidas. Quando faço minhas
atividades ou viajo na maionese ouvindo minhas músicas, não sou apenas eu
fazendo isso; somos eu e o Walter apreciando aquela canção. Quando estou
cansada depois de um dia de expediente, reclamo para ele, meu companheirinho de
trabalho. Quando vou checar o terrário para ver o que ele anda aprontando, falo
com ele naquele tom infantil, como se ele pudesse me ouvir.
Algo que já virou bordão entre mim e meu
parceiro é usar o Walter como bode expiatório quando quero alguma coisa do mercado
(“O Walter está pedindo...”) ou quando como uma barra de chocolate inteira (“Eu
dividi com o Walter...”). Meu namorado até passou a dizer que o Walter virou o “caracol
expiatório” (esse é nosso humor lúdico). 😆
É nesse ponto que entram os “Conselhos
de um caracol”, título da postagem. O bichinho Walter certamente não faz ideia
do mundo acelerado no qual vivemos, da ansiedade que os prazos e as metas do
trabalho nos causam, tampouco do que seja um boleto. Contudo, em toda a sua
simplicidade e calmaria, ele tem muito a ensinar àqueles dispostos a
observá-lo.
Ele vive o momento, degusta sua abobrinha,
aproveitando cada detalhe do sabor. Sabe apreciar as pequenas coisas da vida,
como quando levanta as anteninhas e a cabecinha para sentir o vento. Come
alimentos saudáveis, bebe água e repousa sempre que o corpo pede. Quantas vezes,
na vida, somos devorados por prazos e sobrecarregados por um ritmo que não nos
é natural, a ponto de nos esquecemos de quão boa é a sensação se sentir o vento?
De quão mágico pode ser observar as nuvens coloridas em um final de tarde? De
quão bom é fazer uma refeição e simplesmente aproveitar o momento?
No meu caso, a própria responsabilidade
de cuidar dele me obrigou a comer mais tipos de vegetais, pois sempre tenho que
comprá-los. Já mencionei meu vício em rúcula? Também costumo me lembrar mais de
beber água, já que, de tempos em tempos, borrifo o terrário para manter o
ambiente com a umidade adequada para ele.
E, sinceramente, no final do dia, são
essas coisas que realmente valem a pena e fazem a vida ter sentido. É rir de
coisas bobas (como chamar ele de “caracol expiatório”), ouvir uma música e
lembrar de alguém querido, sentir o vento no rosto, observar a natureza e continuar
se maravilhando com coisas simples.
Ao visitar fóruns sobre criação de
moluscos de estimação, deparei-me com uma das descrições mais belas e singelas sobre
a relação entre um tutor e seu bichinho. O texto, que traduzirei a seguir, foi
uma resposta a uma pessoa que indagava se caracóis têm noção da existência de
seus tutores. Para entender melhor o contexto da discussão, é preciso
considerar o fato de que caracóis são animais cuja visão é bem rudimentar (seus
pequenos olhos apenas detectam variações de luminosidade), não têm audição como
a nossa e dependem muito de quimiorrecepção para perceber o ambiente. Essa é,
inclusive, a função daquelas pequenas estruturas próximas à boca. Mas, diante de
tudo isso, eles têm noção da nossa existência?
“Eles fazem, mas não como ‘você’ faz, como
sua família e amigos fazem. Você é a sensação de conteúdo que eles sentem
quando cheiram e provam uma boa refeição. Você é a segurança que eles
experienciam quando conseguem dormir sem interrupções. Você é uma força da
natureza favorável quando o espaço deles está livre de excesso de sujeira. Você
está nas dez mil pequenas escolhas que eles fazem todos os dias. Você é
tudo, menos nada para eles. Sua invisibilidade é um presente. Nunca ser
conhecido é um presente. Você deu a eles o presente de uma vida perfeita. Como
a mão de Deus amparando sua criação”. (Usuário do Reddit)
[Olhos cheios de lágrimas]
Logo, talvez o Walter não saiba quem eu
sou da maneira como a Flora (minha gata) sabe, mas a presença e os cuidados que
ofereço fazem parte da experiência de vida dele. E todo o amor que sinto por
ele é justamente isso: amar e cuidar de um serzinho frágil, pequeno e indefeso
sem pedir nada em troca, encontrando paz e felicidade simplesmente em vê-lo se sentindo
bem e protegido. Deixo aqui duas das minhas fotos preferidas dele, tiradas ainda no começo deste ano no jardim da minha vó.
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| ~Walter em um momento de reflexão no jardim. 2026. Digital color photograph. Personal archive. |

