Saudações, mundo!
À beira da eclosão de uma terceira guerra
mundial, sob a hipervigilância das big techs e diante de uma possível ameaça à
nossa soberania nacional, decido voltar a escrever textos despretensiosos em
um blog.
Digamos que não é lá o momento mais
oportuno para eu retomar a escrita neste espaço, haja vista eu estar atolada
até o pescoço de trabalho. Para se ter uma ideia, eu comecei a rascunhar esta
postagem em janeiro 😁. Só hoje consegui sentar aqui para concluí-la. Ninguém mais escreve em blogs, e tampouco alguém os lê. Apesar de ter essa noção, opto por retornar; afinal, em um mundo dominado por textos escritos por IA, escrever textos "de cabeça" é um ato de resistência. De modo geral, este texto é um prelúdio para a nova fase deste blog, que já conta com algumas coisas em pré-publicação. Stay tuned!
A postagem que inaugura esta nova fase com chave de ouro é sobre ele: [som de tambores 🥁🥁] ~4 gramas de fofura, cerca de 3 cm de graciosidade, olhinhos discretos e curiosos, conchinha bege~marrom-claro e rádula sedenta por papaya. Senhoras e senhores, apresento-lhes o Walter! 🥁🥁
Sim, adotei um caracol de estimação 😊 Encontrei o Walter (a.k.a. nenê Walter, bichinho Walter, ou ainda Gosmentinho, para os mais íntimos) no dia 26 de dezembro de 2025, em uma de minhas expedições fotográficas pela natureza. De início, avistei a conchinha em uma planta e corri para inspecioná-la. Como nunca havia tido a sorte de encontrar um caracol vivo (certa vez achei uma concha abandonada do que um dia fora um caracol...), não fiquei muito esperançosa. Queria apenas fotografá-la, pois sempre achei linda aquela estrutura espiral. Segurei a concha em minhas mãos por alguns minutos e voltei minha atenção a uma borboleta que avidamente coletava pólen em uma corda-de-viola. Após certo tempo, algo se moveu na concha... “Está vivo!!!” Automaticamente entrei no meu modo “derretimento por coisas fofas” e, alguns minutos depois, vi o Walter pela primeira vez <3 Foi amor à primeira vista! A partir dali, soube que o levaria para casa. Improvisaria um terrário até comprar um adequado. Daria um jeito!!
E assim foi. As primeiras duas semanas
do Walter em casa foram dentro de um copo de whisky. Imediatamente, botei meus
conhecimentos básicos de malacologia em prática: peguei terra do jardim,
coletei alguns galhinhos de physalis, folhas de dente-de-leão e musgo, a fim de
construir um miniterrário. Pesquisei por terrários para pequenos invertebrados e
comprei um de 3 litros (que, para a nossa sorte, chegou bem rápido).
Após passar um mês “de boas” no terrário,
comendo bem, defecando normalmente e fazendo passeios supervisionados no
jardim, o Walter entrou em estiva. Era a primeira vez que eu via de perto um
caracol assim e, inicialmente, achei que ele tivesse morrido. A película de
cálcio estava formada bem para dentro da concha, dando a impressão de que ele tivesse
secado. Eu entrei em desespero, tive uma crise de choro (essa foi a segunda; a
primeira foi em certa manhã em que o meliante se enterrou no fundo do terrário,
fazendo-me acreditar que ele havia fugido). Abracei o terrário e comecei a
soluçar, sentindo-me responsável pela morte de um ser inocente.
No desespero, tirei uma foto e
pesquisei na esperança de se tratar de algum processo fisiológico típico de caracóis.
E era isso: Walter havia entrado em estiva, muito provavelmente em decorrência de
mudanças bruscas de temperatura. Contudo, a essa altura, eu já havia me
desesperado e colocado a concha dele contra a luz para inspecionar, além de
borrifar água para saber se ele reagiria. E reagiu. Após meia hora, esse
serzinho gosmento emergiu novamente da concha, devorando o epifragma. Em seguida,
saiu andando (ou deslizando, talvez? 🤔) como se nada tivesse acontecido. Eu
brinquei com meu namorado, dizendo que o Walter deve ter ficado “putasso”
comigo: “Como ousa perturbar meu soninho de beleza?”
O problema é que, no dia seguinte, ele
novamente estivou. Algo estava claramente errado no ambiente. E assim ele ficou
por longos dezesseis dias. O que me tranquilizava era ver as anteninhas movendo-se
sutilmente através da superfície translúcida da concha. Retornamos a Curitiba e
nada mudou. Long story short: ele passou por várias estivas curtas em que ele saía,
passava um dia fora e depois estivava novamente. Contatei um veterinário
especializado em animais silvestres. Ao trocar ideia com ele e me aprofundar um
pouco mais na literatura, chegamos à conclusão de que seria fundamental controlar
a umidade do terrário.
Meu namorado científico maravilhoso
comprou um terrário do mesmo modelo e acoplou um higrômetro/termômetro à tampa.
Hipótese: o ambiente provavelmente estava com umidade muito baixa, o que me
motivava a dar borrifadas frequentes ao longo do dia. No entanto, o higrômetro provou
ser exatamente o contrário: o ambiente estava demasiadamente úmido! Isso
explicava o porquê de o Walter sempre ficar no teto do terrário, justamente nas
frestas que permitiam troca de ar. Ele evitava tanto ficar na parte inferior
que cheguei a considerar que pudesse estar desgostoso com o substrato. Mas a
verdade era que o ar estava muito pesado, dificultando a respiração e até mesmo
colocando em risco a manutenção da concha. Ao percebermos isso, diminuímos as
borrifadas e, tcharam!, ele saiu da estiva, parou de ficar no teto, teve um
evidente aumento no apetite e se mostrou mais ativo. Meu namorado, empolgado,
exclamou: “viva a ciência!”
À medida que o Walter estivava, eu
lia livros sobre moluscos gastrópodes e visitava fóruns em busca de dicas de
criadores quanto à alimentação e ao substrato; assim, fui aprimorando o
terrário, que hoje conta com cerca de 5 cm de substrato de fibra de coco (livre
de sais e taninas), tapete de musgo-da-floresta, osso de sépia para fonte de cálcio
e uma “minioca” de fibra de coco para servir de abrigo (além do referido
higrômetro/termômetro acoplado).
Hoje, ele está muito bem adaptado e,
por que não dizer, faceiro: alimenta-se bem (ele ama mamão e abobrinha!) e tem
seus lugares preferidos para dormir. Demonstra curiosidade com a inserção de
objetos novos no ambiente e explora o terrário com frequência, passando tempo
considerável fora da concha, comportamento fofo que demonstra segurança e relaxamento.
Planejamos um cardápio semanal com o objetivo de oferecer uma dieta equilibrada
(temos o dia da abobrinha, da cenoura, da rúcula com agrião, da berinjela e
assim por diante). Esta semana mesmo ele obliterou um pedaço enorme de abobrinha
ao longo da noite (e cagou proporcionalmente à quantidade consumida @_@) –[i] os alimentos têm sido
servidos com pedaços de CaCO₃ para fortalecer a conchinha após as múltiplas
estivas.
Há muito eu queria ter um caracol
de estimação. Sempre achei que as conchas conferem um charme peculiar a esses
animais. Lembro-me de ter desenvolvido interesse especial em caracóis após conhecer
o trabalho de Vyacheslav Mischenko, um de meus principais referenciais na
fotografia. Fiquei apaixonada pelo modo mágico com que ele representa o pequeno
mundo desses moluscos, trazendo à tona detalhes invisíveis aos olhos: a flor
minúscula que o caracol admira; o cogumelo que serve de abrigo; ou ainda a gota
de orvalho que mata sua sede. A obra desse artista certamente tem orientado meu
percurso na fotografia.
Eu não tenho palavras para descrever o amor que sinto por esse bichinho; só sei que desenvolvi um vínculo tão forte, mas tão forte... Até brinco que é como se eu tivesse reencontrado um pedacinho meu que outrora estava perdido. Já até associei várias músicas a ele: Snail ~Camiidae, Snail Waltz ~ Enzo Corne, Advent ~ Dead Can Dance, além de várias do Cocteau Twins. Já chorei ao contemplar o Walter fazendo suas refeições ao som de A Kissed out Red Floatboat, The Itchy Glowbo Blow e Cherry-Coloured Funk * -*).
O Walter não é apenas um caracol; simbolicamente,
ele é um reflexo da minha própria fragilidade e existência. Seu metabolismo se
traduz em processos internos que reconheço em mim mesma. Embora viva em um
mundo caótico, ele segue o seu próprio ritmo; é extremamente vulnerável a pequenas
mudanças no ambiente; diante de quaisquer adversidades, necessita de recolhimento
a fim de se recompor e preservar energia (estiva). De maneira análoga, devido à
minha sensibilidade, dificuldades de socialização e sentimento de inadequação, sempre
vivi muito mais dentro da minha própria mente do que no mundo externo (constantemente me recolho em minha “conchinha” mental quando
o mundo se torna demais). Caracóis são rejeitados e tratados como incômodo pela
maioria das pessoas, sensação de rejeição que também compartilho, pois conheci
esse sentimento desde cedo no meu ambiente familiar (tópico sobre o qual não me
aprofundarei nesta postagem, a fim de não pesar o texto). Ao descrever para o
meu namorado o quanto me reconheço no Walter, ele mesmo completou o raciocínio
de forma bonita:
“ – Eu não me sinto como as outras
pessoas, não as compreendo e tenho dificuldades de me relacionar, por isso
eu...”
“ – Você entra em estiva.”
Por mais que nós, humanos, tenhamos
o hábito de projetar nossas percepções nos nossos bichinhos, é evidente que
moluscos são bem rudimentares. O Walter carece dos mecanismos psicológicos para
entender ou sequer sentir afeto. Ainda assim, estou feliz com o fato de que ele
já fica “de boas” na minha mão e sem se retrair na concha quando removo cocozinho
preso nele com papel higiênico (antes ele evitava minha mão ou se recolhia). 🐌
Cuidar desse serzinho tão pequeno e
frágil tem não apenas me protegido contra a depressão, mas também ajudado a
exercer afeto. Comecei a consumir vegetais que antes não faziam parte do meu
cardápio: rúcula, agrião, abobrinha e berinjela. Inclusive, rúcula é uma
delícia!
O Walter é o primeiro de muitos
caracoizinhos que passarão pela minha vida, pois hoje posso afirmar categoricamente
que estou amando a experiência de ter um molusco de estimação. Além disso, onde
cabe um, cabem dois ou seis... O lado triste de ser tutor desses animais é que
sua expectativa de vida não é lá muito longa, sobretudo se ele realmente for da
espécie que eu acredito que seja... E só de pensar nisso meus olhos já se
enchem de lágrimas; portanto, não pensarei a respeito. Eu sei que a vidinha
dele é um sopro, mas farei o possível para dar-lhe a melhor vida possível pelo
tempo que ele estiver comigo.
Não poderia terminar esta postagem senão com um dos meus retratos preferidos do Walter, o qual faz parte do meu acervo pessoal Snail Tales.

Walter & Walterego. 2026. Digital color photograph. Personal archive.
🎧 Spleen and Ideal ~ Dead Can Dance.
[i] Todos
os travessões usados neste texto são de produção humana, não sendo provenientes de textos gerados por
IA.

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